No sexto mês de Mounjaro, eu cheguei ao peso que queria. Mas a parte mais importante não apareceu na balança.

Relato narrativo inspirado em uma experiência real compartilhada por uma usuária do Reddit. A personagem, o contexto de vida e alguns detalhes foram adaptados para preservar a sua identidade.

HISTÓRIA REAL

5/27/20265 min read

Quando comecei o Mounjaro, eu esperava um alívio quase imediato.

Eu moro em Londres, trabalho em um escritório perto de King’s Cross e passei boa parte da vida tentando parecer organizada por fora, enquanto minha relação com comida já vinha ficando difícil há anos. Agenda cheia, metrô lotado, café no caminho, almoço comprado às pressas, alguma coisa doce no fim da tarde e, à noite, aquela promessa antiga: amanhã eu faço direito.

Aos 38 anos, eu já tinha tentado de tudo um pouco. Aplicativo de calorias, low carb, jejum, plano de academia, marmitas prontas, corrida no parque por duas semanas. Algumas tentativas até funcionavam por um tempo. O problema era continuar.

Meu peso subiu devagar. Um pouco depois da pandemia. Um pouco depois de trocar um trabalho mais ativo por outro sentado. Um pouco depois de normalizar delivery quando chegava em casa cansada. Um pouco depois de parar de me pesar porque a balança estragava meu humor pelo resto do dia.

Quando meu médico sugeriu Mounjaro, eu já tinha lido muitos relatos. Pessoas perdendo peso rápido. Fotos impressionantes. Gente dizendo que esquecia de comer. Entrei no tratamento com a esperança de que, finalmente, meu corpo parasse de brigar comigo.

Nos primeiros meses, muita coisa mudou.

A fome ficou menor. A vontade de beliscar depois do jantar diminuiu. Eu conseguia passar por uma padaria sem sentir que aquilo viraria uma negociação interna. Pela primeira vez em anos, existia um pequeno intervalo entre a vontade e a ação.

Eu pensava: “quero comer isso”.

E conseguia responder: “eu não preciso comer isso”.

Esse espaço foi novo para mim.

Mas logo entendi que o remédio não apagava a vida real.

Eu ainda precisava comer. Ainda precisava beber água. Ainda precisava dormir. Ainda tinha dias em que o trabalho era pesado, Londres estava fria e meu corpo pedia comida quente, salgada, confortável.

No terceiro mês, passei por uma fase em que achei que comer quase nada era um bom sinal. Eu tomava café, empurrava um iogurte, beliscava alguma proteína e chegava ao fim do dia com muito pouca comida. A balança descia. Eu ficava animada.

Depois vieram a dor de cabeça, o cansaço, a tontura leve ao levantar, a irritação.

Minha primeira reação foi culpar o Mounjaro. Mas, olhando com mais calma, meu corpo estava tentando funcionar com pouca comida e pouca água.

Foi aí que uma coisa básica começou a fazer sentido: déficit calórico ajuda no emagrecimento, mas passar meses comendo o mínimo possível cobra um preço.

Precisei reaprender o óbvio. Emagrecer não significava virar alguém que quase não come. Significava comer menos do que antes, sim, mas com algum critério. Proteína. Água. Fibra. Refeições pequenas, possíveis, principalmente nos dias de pouco apetite.

Outra confusão que fiz no começo foi achar que sentir fome era sinal de que a dose estava fraca.

Quando a fome aparecia, eu pensava: “será que já preciso aumentar?”. Lia relatos de pessoas que esqueciam de comer e comparava com o meu corpo, que ainda avisava quando precisava de alimento.

Com o tempo, entendi que fome não era o problema principal. O que me desgastava era pensar em comida o tempo todo. Planejar a próxima coisa antes de terminar a atual. Sentir culpa antes mesmo de escolher.

O Mounjaro baixou esse barulho. Não silenciou tudo, mas deixou minha cabeça menos ocupada com comida. E isso me deu margem para decidir melhor.

No meu caso, a dose de 7,5mg continuou funcionando por mais tempo do que eu imaginava. Vi muita gente aumentando a dose a cada quatro semanas e fiquei tentada a fazer o mesmo. Parecia que subir era sinal de avanço.

Mas minha perda continuava acontecendo, ainda que sem pressa. Algumas semanas, meio quilo. Outras, nada. Às vezes eu perdia centímetros na cintura sem perder peso. Às vezes uma calça vestia melhor, mas o número da balança insistia no mesmo lugar.

Antes, isso teria acabado com meu ânimo.

Então comecei a anotar outras coisas: medidas, fotos, roupas. Uma calça jeans sem elastano virou meu marcador mais honesto. Ela não aceitava argumento. Ou fechava, ou não fechava.

Quando fechou sem eu prender a respiração, entendi que havia mudança ali.

Também aprendi a não chamar qualquer semana ruim de estagnação.

Alguns aumentos vinham de retenção, intestino preso, treino de pernas, ciclo menstrual, mais sal na comida, pouco sono. Londres estava gelada, eu bebia menos água do que imaginava, e meu corpo respondia.

Uma estagnação real, para mim, passou a significar várias semanas sem mudança no peso e nas medidas. Não três dias. Não uma semana atravessada. Não uma segunda-feira depois de um domingo mais pesado.

No sexto mês, ainda usando 7,5mg, alcancei o peso que tinha colocado como meta inicial.

Achei que fosse sentir uma alegria enorme. Mas foi mais silencioso.

Olhei para o número e pensei: “cheguei”.

Depois pensei: “e agora?”.

Porque, quando cheguei lá, percebi que aquele número já não explicava tudo. Meu corpo estava diferente, mas minhas referências também tinham mudado. Eu queria mais força. Queria preservar músculo. Queria melhorar minha postura. Queria subir as escadas do metrô sem sentir tanto peso nas pernas. Queria parar de medir resultado só pelo menor número possível.

Por isso minha meta mudou.

Não por insatisfação. Mudou porque entendi que “peso saudável” depende de mais coisa do que uma faixa na tabela. Duas pessoas com o mesmo peso podem ter corpos muito diferentes. Massa muscular, cintura, gordura corporal, exames, disposição, idade, histórico: tudo entra nessa conta.

Hoje, se alguém me pergunta o que mais fez diferença, minha resposta é simples:

água, proteína, paciência, alguma musculação e não tomar decisões no susto.

Quando sinto enjoo, dor de cabeça ou cansaço, minha primeira pergunta deixou de ser “será que o remédio está me fazendo mal?”. Agora começo pelo básico: bebi água? comi o suficiente? fiquei muitas horas sem proteína? comi algo muito gorduroso? dormi mal? posso estar ficando doente?

Se o sintoma é forte, persistente ou estranho para mim, falo com médico ou provedor de saúde. Relatos na internet ajudam a se sentir menos sozinha, mas não substituem atendimento.

O Mounjaro me ajudou muito. Mas ele não organizou minha geladeira, não colocou água na minha mesa, não decidiu minha dose, não treinou por mim e não resolveu sozinho minha relação com o corpo.

Ele me deu uma chance melhor de agir antes do impulso.

E eu precisei aprender a usar essa chance sem transformar tudo em pressa.

Se você está começando agora e se sente frustrada porque outra pessoa perdeu mais rápido, eu entendo. Eu também comparei. Eu também achei que estava ficando para trás.

Mas corpos respondem de formas diferentes. Perder devagar ainda conta.

Às vezes, a semana em que a balança não se mexe é a mesma semana em que a cintura diminui. Às vezes, o resultado aparece primeiro na roupa. Às vezes, aparece quando você consegue deixar comida no prato sem sentir que está perdendo alguma coisa.

No meu sexto mês, cheguei ao peso que queria.

Mas o principal aprendizado foi menos vistoso: o tratamento passou a funcionar melhor quando parei de esperar um efeito perfeito e comecei a observar meu corpo com mais honestidade.

Menos improviso. Menos comparação. Menos decisões tomadas em dia ruim.

E mais atenção ao básico, repetido por tempo suficiente para aparecer.

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